Ele já mordeu a sua mão, o pé do seu filho, o pé da mesa, o sofá, o jardim. Às vezes sobra até para o carro na garagem.
Talvez você já tenha pensado: "será que vai dar certo?". Muita gente chega a cogitar doar o filhote ou devolver para a ONG, porque a convivência não é a que imaginou.
Primeiro, calma. Tem solução. E ela começa por uma pergunta simples: por que o seu filhote morde?
Por que meu filhote morde? Comece pela causa, não pela técnica
O Daniel Vieira, médico veterinário formado pela UFMG e adestrador há 10 anos, abre a aula gratuita sobre mordidas com um ponto que muda tudo: você só sabe como agir depois de entender a causa.
Quando você identifica o motivo, fica claro o que fazer em duas frentes:
- Medidas preventivas: o que muda na rotina para a mordida nem começar.
- Medidas corretivas: o que fazer no momento em que a mordida acontece.
O cachorro usa a boca para quase tudo
O cão usa a boca para comer, respirar, se higienizar, se comunicar, explorar o ambiente e até perder calor (a saliva evapora quando ele está ofegante). Morder, em si, é natural. O problema é o que ele morde e o que aprende com isso.
Um alerta de saúde do Daniel: não deixe o cachorro lamber a sua boca. A boca dele costuma ter muitas bactérias, e às vezes protozoários.
Filhote mordendo: as 6 causas reais
Leia pensando na sua casa. Pelo menos uma vai soar familiar.
1Exploração e fase oral: a troca de dentes do filhote
Para o filhote recém-chegado, tudo é novidade, e ele entende cada coisa colocando na boca. O adulto também explora assim, mas o filhote faz com mais intensidade: tem mais energia, mais curiosidade e está na fase oral.
Se ele estiver na troca de dentes, que vai de 4 a 7 meses, a vontade de morder aumenta ainda mais, porque a gengiva incomoda. E os seus dedos, nas palavras do Daniel, são o mordedor perfeito: um pouco durinhos, macios ao mesmo tempo, na medida da boca dele.
Na prática: filhote recém-chegado não fica sem supervisão, tem sempre uma atividade disponível e, quando você percebe que ele vai morder o que não deve, redireciona a atenção dele para um objeto próprio para cães.
2Excitação: o filhote mordendo a mão no carinho
Você chega com saudade, fala fino, abraça, pega no colo. O filhote fica agitado, pula e mordisca a sua mão e o seu braço. E não é só na chegada: muita gente vai atrás do cachorro o tempo todo para fazer carinho agitado.
Repetido todo dia, isso vira hábito. Surge aquele cão que não fica quietinho no carinho e já tenta "caçar" a sua mão, inclusive com visitas que chegam com calma. Ninguém ensinou de propósito, mas ele aprendeu com a atitude das pessoas da casa.
Na prática: nada de festa na chegada, para ninguém da casa (familiares, visitas e funcionários). Chegue com calma e só toque no filhote quando ele estiver calmo, com carinho lento e tranquilo. De preferência, chame o cão ou espere que ele venha até você, em vez de ir atrás dele toda hora se abaixando e fazendo barulhinhos.
Esse ponto importa mais do que parece. Na comunicação canina, ir atrás do cão o tempo todo, agachado e com vozinha, passa a mensagem errada sobre quem conduz a relação. Por isso tantos filhotes crescem sem levar o tutor a sério.
3Ansiedade de separação: o filhote mordendo tudo quando fica sozinho
A festa na chegada tem um segundo efeito: aumenta o risco de ansiedade de separação.
Para o filhote, toda chegada é uma explosão de alegria e toda saída deixa um vazio sem nada para fazer. Ele fica ansioso esperando a sua volta, e, como o cão é um animal de grupo, ficar sozinho pesa.
Um dos sinais clássicos da ansiedade de separação é o comportamento destrutivo: aquele cachorro que destrói a casa quando você sai.
Na prática: reveja a forma como vocês chegam em casa e deixe uma atividade para ele fazer na sua ausência (veja o arsenal abaixo).
4Brincadeira de luta com a mão
A pessoa provoca, o filhote rosna, a pessoa rosna de volta e ele tenta morder a mão e o braço. Parece inofensivo, mas nessa "luta" o filhote aprende a usar a principal ferramenta dele em você.
Ele não está puxando uma corda: está mordendo a sua mão e ouvindo que está tudo bem. Quando se empolga, pega pesado e você recua, ele entende que, quando avança, você cede.
O risco aparece na fase adulta. Um cão que aprendeu isso sem limites claros pode avançar de verdade quando for contrariado, por exemplo quando você tentar tirar algo dele. E isso vale para cães grandes, médios e pequenos.
Na prática: troque a luta com a mão por brincadeiras com objeto, como a corda e a bolinha.
5Disputa por comida, objetos e pessoas
Entre cães, a mordida aparece para proteger comida, membros do grupo e espaço. Dentro de casa, o filhote pode fazer o mesmo.
Alguns sinais comuns:
- Avançar quando você chega perto da ração, do osso ou da orelha que ele está roendo.
- Não deixar o marido, a esposa ou a criança se aproximar de você.
- Montar na sua perna, se jogar por cima do seu pé, mordiscar os seus pés.
Se a pessoa se assusta e recua toda vez, o filhote aprende que avançar funciona. E tem o erro mais comum: achar bonitinho ("olha, ele está me defendendo") e até provocar o filhote para ver a reação.
Só que o filhote cresce. Na fase adulta, com os hormônios sexuais aflorados, aquela avançada vira mordida para valer. E a família costuma dizer: "ele nunca fez isso". Fez, sim, só que antes era pequeno.
O Daniel explica que o cão nem está "defendendo" ninguém: ele aprendeu que aquela pessoa pertence a ele e que, quando alguém chega perto, ele avança. É uma resposta condicionada, e dependendo do porte, pode causar acidentes graves.
Na prática: não provoque o filhote para ele avançar em quem chega perto de você, mesmo que pareça fofo. E, para a questão da comida, o caminho é o manejo alimentar desde cedo, que o Daniel ensina em aula prática.
6Tédio e energia acumulada
Casa e apartamento não são o habitat natural do cachorro. Em ambiente confinado, ele acumula muita energia, e uma das formas de extravasar é mordendo.
Por isso o tédio é uma das maiores causas de mordida: filhote sem nada para fazer costuma escolher o seu sofá.
Na prática: atividade física regular e atividades dentro de casa, todos os dias.
Como fazer o filhote parar de morder: o que muda na rotina
O mesmo conjunto de medidas trabalha várias causas ao mesmo tempo: o que previne a mordida por exploração também ajuda na troca de dentes, na excitação e no tédio.
- Supervisão e redirecionamento: cada tentativa de morder o que não deve vira um convite para o mordedor certo.
- Chegada calma: combinada com todos da casa, e carinho só com o filhote calmo.
- Objeto na brincadeira, nunca a mão: corda para puxar e disputar com você e bolinha para buscar estão liberadas.
Passeio diário, na medida certa
Se o seu filhote já pode passear, passeie todos os dias. A intensidade e a duração dependem da genética, da idade e do porte: a necessidade de um Border Collie ou de um Labrador jovem não é a mesma de um Shih Tzu.
O Daniel alerta para a voltinha no quarteirão: para um cão jovem e cheio de energia, ela não drena quase nada, e as mordidas continuam.
E se o filhote ainda não completou as vacinas e não pode sair? As atividades dentro de casa resolvem boa parte, e valem também para quem já passeia.
Filhote mordendo tudo? Monte o arsenal de mordedores
O filhote precisa ter, quase o tempo todo, coisas liberadas para morder. O arsenal que o Daniel recomenda:
- Orelha bovina ou suína e traqueia: cartilagem macia e durinha ao mesmo tempo. Filhotes e raças pequenas adoram e podem ingerir. Ótimo custo-benefício.
- Casco ou chifre: para quem tem a mordida mais potente, algo duro funciona melhor.
- Casco ou chifre recheado e congelado: recheie com ração molhada, ração com um pouco de banana ou ração úmida. Ofereça resfriado e, depois que ele se adaptar, congelado. Cabe uma porção da refeição, e ele passa um bom tempo lambendo como um picolé. Ótimo para o filhote que fica sozinho.
- Ossos naturais: bovinos ou suínos, encontrados no mercado pet, para cães de mordida mais forte.
- Cenoura resfriada ou congelada: fica durinha, rende tempo de mordida e, na troca de dentes, resfria a gengiva e reduz o desconforto.
- Mordedor adequado ao porte e à idade: um Poodle filhote e um Golden filhote precisam de mordedores diferentes.
- Brinquedo que solta ração: a bolinha com um furinho que libera ração conforme gira tira o cão do tédio.
- Corda e bolinha: para brincar junto e gastar energia.
A regra do rodízio
Não deixe tudo disponível o tempo todo. Se o filhote tem tudo sempre, nada tem valor.
Faça rodízio: um dia o chifre, no outro o casco, no outro a ração congelada, no outro a bolinha que solta comida. Um dia osso, no outro orelha. Assim ele está sempre motivado com algo novo.
Como resume o Daniel: quanto mais trabalho você dá para o seu cachorro, menos trabalho ele dá para você.
E quando o filhote morde mesmo assim?
Prevenção resolve muito, mas às vezes o filhote morde mesmo com tudo isso em dia. Para esses momentos existe a correção no ato do comportamento, com técnica e no momento certo.
Ela precisa ser vista, com o tempo e a linguagem corporal certos, por isso o Daniel ensina nas aulas práticas, passo a passo. A mesma correção vale para a mordida por troca de dentes, por exploração e por excitação. Lá ele também mostra o manejo alimentar e um caso real de filhote pequeno defendendo uma orelha bovina.
Cão adulto que avança por comida ou objetos: procure um profissional
Se o seu cão já é adulto e avança para defender comida, objetos ou pessoas, o Daniel é direto: não tente resolver sozinho. Esse é um caso mais delicado, e você pode se machucar gravemente.
O caminho é um adestrador profissional ou um centro de treinamento para cães. Tudo que está neste artigo é, principalmente, sobre prevenir que o filhote chegue lá.
Entender a causa é o que transforma a convivência com o seu filhote. Nosso objetivo é ajudar você a conviver de forma harmoniosa com seu cão. Educação não é prisão: educação é liberdade e equilíbrio.